18 de maio de 2026 · 4 min de leitura · … visitas
Aquisição em TI: por que a cultura decide o resultado
Aquisição em TI: por que a cultura, e não os sistemas, decide o resultado. O que a Cirion ensina sobre integrar empresas e o que muda para quem lidera times.
Quando o presidente da Cirion afirma que o sucesso de uma aquisição depende da integração de culturas, ele está tocando em um ponto que muitos CEOs de tecnologia ignoram até o momento em que o prejuízo aparece. No meu dia a dia na UNODATA, vejo que as planilhas de due diligence focam em números e sistemas, mas deixam de lado o que realmente sustenta a operação depois do fechamento.
Eu participei de duas integrações nos últimos anos. Em uma delas, o choque cultural custou meses de produtividade e a saída de talentos chave. Na outra, investimos tempo em entender valores e rituais antes de mover qualquer processo. A diferença nos resultados foi clara.
Minha aposta é que, em 2026, quem tratar cultura como item secundário vai pagar caro em retenção e execução.
O que a declaração da Cirion revela sobre o mercado atual
O mercado de TI brasileiro vive um ciclo de consolidação. Empresas de infraestrutura, dados e segurança estão sendo compradas ou fundidas em ritmo acelerado. O discurso padrão costuma destacar sinergias técnicas e economia de escala. Augusto Salomão inverteu a ordem e colocou a cultura no centro. Isso não é retórica de palco. É reconhecimento de que, depois da assinatura, o que move ou paralisa a nova organização são as pessoas.
Na prática, vi times de engenharia que usavam a mesma stack tecnológica mas não conseguiam colaborar porque um lado esperava decisões top-down e o outro funcionava por consenso. O código até rodava, mas as entregas atrasavam porque ninguém sabia quem tinha a palavra final. O problema não era técnico. Era cultural.
O que aprendemos na UNODATA ao integrar times
Quando adquirimos uma pequena empresa de analytics em 2024, decidimos atrasar o plano de migração de plataformas em duas semanas. Usamos esse tempo para mapear como cada time tomava decisões, como celebrava vitórias e como lidava com falhas. O exercício pareceu lento no começo, mas evitou retrabalho maior depois.
Um dos aprendizados mais concretos foi sobre reuniões. A empresa adquirida tinha o hábito de registrar tudo em atas detalhadas e distribuir para todos. Nosso time preferia discussões rápidas e decisões documentadas apenas para os envolvidos diretos. Depois de alinhar o formato, a quantidade de mal-entendidos caiu visivelmente.
O que une duas empresas depois da assinatura não é o contrato, mas a forma como as pessoas decidem trabalhar juntas no dia seguinte.
Três passos para tratar cultura como ativo estratégico
- Mapear valores explícitos e implícitos nas primeiras quatro semanas. Pergunte como cada time define sucesso, como resolve conflitos e como dá feedback.
- Escolher rituais comuns em vez de impor os da empresa maior. Um ritual simples, como a forma de fazer demo de produto, já alinha comportamentos.
- Designar um par de líderes, um de cada lado, responsável por identificar atritos culturais antes que virem ruído operacional.
Esses passos não substituem a integração técnica. Eles a tornam possível. Quando a cultura não é cuidada, o time técnico gasta energia resolvendo atritos internos em vez de entregar valor para o cliente.
O que acontece quando a cultura é deixada para depois
Já vi casos em que a empresa compradora manteve todos os processos antigos por seis meses e depois anunciou mudanças radicais. O resultado foi perda de talentos e queda de moral. O custo de reposição de engenheiros seniores no Brasil atual torna esse erro caro.
A cultura também afeta a velocidade de decisão. Em uma integração que acompanhei de perto, dois times de suporte usavam critérios diferentes para priorizar chamados. O cliente percebia a diferença e reclamava. Só depois de alinhar o critério a operação estabilizou.
Perguntas frequentes
Como medir o sucesso da integração cultural?
Acompanhamos retenção de talentos chave, tempo médio para primeira entrega conjunta e número de decisões que exigem escalada desnecessária. Esses três indicadores costumam mostrar movimento real em noventa dias.
Qual o papel do CEO durante a integração?
O CEO precisa definir o ritmo e garantir que a conversa sobre cultura não seja delegada apenas ao RH. Ele também decide quando manter diferenças e quando unificar processos.
E se as culturas forem muito diferentes?
Diferença não é problema. O problema é fingir que não existe. O caminho é declarar as diferenças, escolher o que preservar e comunicar a escolha com clareza para os dois lados.
Quanto tempo dedicar à integração cultural?
Nas primeiras seis semanas o foco principal deve ser cultural. Depois disso, a atenção migra para execução técnica, mas a revisão cultural continua em ciclos de três meses.
E na sua última aquisição, qual foi o maior obstáculo cultural que você enfrentou?
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