22 de abril de 2026 · 8 min de leitura · … visitas
Gestão do estresse é competência de CEO, não de RH
Mel Robbins provoca: o líder que não regula o próprio sistema nervoso contamina o time. Veja como isso afeta decisão, produto e resultado na prática.
Eu li o dado e fiquei parado por uns segundos. Um dos livros mais vendidos do planeta agora não fala de IA, de estratégia de go-to-market nem de liderança servidora. Fala de como parar de sabotar a si mesmo. Mel Robbins, com “The Let Them Theory”, está no topo das listas ao mesmo tempo em que o mundo corporativo passa por mais uma rodada de cortes, restruturações e pressão por eficiência. Isso não é coincidência.
A notícia circulou no IT Forum com uma frase que me pegou: gestão do estresse é a competência do século, e ela começa por quem lidera. Robbins não estava falando com coaches de vida. Estava falando com CEOs, CTOs, gerentes de produto. Gente que acorda com o Slack vermelho e dorme pensando em forecast.
Eu dirijo a UNODATA há anos. Já tive ciclos em que operava no modo reativo absoluto. Cada reunião de crise era respondida com urgência máxima, cada cliente insatisfeito virava estado de alerta generalizado no time. E o que eu percebi, na prática, é que esse padrão não é só pessoal. Ele é sistêmico. Quando o CEO está em colapso regulatório, a empresa opera em colapso regulatório. Não tem cultura que aguente.
Minha aposta aqui é direta: gestão do estresse não é pauta de bem-estar corporativo. É pauta de governança. E quem lidera precisa tratar isso com a mesma seriedade com que trata fluxo de caixa.
O sistema nervoso do líder é a arquitetura do time
Existe um conceito que venho usando internamente chamado de contágio emocional. Não é metáfora, é neurociência. Quando o líder entra numa sala com tensão não processada, o grupo sente antes de qualquer palavra ser dita. O tom de voz muda, a postura fecha, a escuta reduz. E aí o time começa a tomar decisões a partir do medo do líder, não a partir dos dados do problema.
Eu vi isso acontecer no meu próprio time durante um período de renegociação de contratos grandes. Estava operando estressado, dormindo mal, e minhas reuniões de alinhamento viraram sessões de pressão velada. Não era minha intenção. Mas era meu estado. O resultado foi que as pessoas passaram a me dar as respostas que achavam que eu queria ouvir, não as informações reais que eu precisava para decidir.
Isso tem custo direto. Decisão baseada em dado filtrado por medo gera produto errado, proposta errada, contratação errada. O estresse não regulado do topo é um multiplicador de erros operacionais na base.
O estresse não processado pelo líder não fica com o líder. Ele circula pelo time como dado corrompido num pipeline de dados.
Mel Robbins toca nesse ponto com uma abordagem que parece simples mas é cirúrgica: você não controla o que acontece, controla a resposta. E a resposta começa no corpo, antes da cognição. É por isso que técnica de respiração, pausa antes de responder, ritual de início de dia não são luxo de executivo com tempo sobrando. São protocolo operacional.
Por que TI sente mais isso do que outros setores
O mercado de tecnologia tem características que amplificam o estresse de forma estrutural. Não estou generalizando. Estou descrevendo o ambiente que eu e minha equipe habitamos todos os dias.
Alguns fatores que tornam o estresse crônico particularmente prevalente em empresas de TI:
- Ciclos de entrega comprimidos. Sprint de duas semanas, demo na sexta, bug em produção na segunda. O ritmo não dá espaço para recuperação entre ciclos de alta demanda cognitiva.
- Ambiguidade constante. Requisito muda, cliente muda, tecnologia muda. O cérebro humano gasta energia enorme tentando estabilizar cenários instáveis.
- Cultura de disponibilidade permanente. Notificação de incidente às 23h, Slack no fim de semana, “só uma coisa rápida” na véspera de feriado. O sistema nervoso não consegue distinguir urgência real de urgência percebida quando o volume é constante.
- Síndrome do impostor amplificada. Em TI, a curva de aprendizado nunca para. Isso cria um estado latente de inadequação em profissionais competentes, especialmente em liderança técnica.
- Falta de rituais de fechamento. Diferente de um profissional que sai do escritório e deixa o trabalho para trás fisicamente, quem trabalha com tecnologia carrega o ambiente de trabalho no bolso, literalmente.
Quando o CEO ou o CTO opera dentro desse ambiente sem protocolo de regulação, o modelo que ele demonstra é: isso é normal, aguente. E o time aguenta, até não aguentar mais.
O que “regular” significa na prática, fora do psicobabble
Vou ser concreto porque odeio o termo “autocuidado” quando ele não vem com instrução operacional.
Regular o sistema nervoso, em termos práticos de liderança, significa criar separação intencional entre estímulo e resposta. Não é meditação transcendental. É proteger o intervalo onde a decisão qualificada acontece.
No meu caso, são três práticas que implementei e que não abro mão em semanas de alta pressão: a primeira é não abrir Slack antes de 30 minutos acordado. A segunda é uma caminhada de 20 minutos antes da primeira reunião de decisão do dia. A terceira é encerrar o expediente com cinco minutos de revisão do que foi concluído, não do que ficou pendente. Parece pequeno. O impacto na qualidade das minhas conversas difíceis é mensurável.
O argumento de negócio que o RH nunca consegue fazer
Quando esse tema chega como pauta de RH, ele é tratado como custo de benefício. Programa de saúde mental, voucher de terapia, palestra de mindfulness na semana da qualidade de vida. Tudo bem-intencionado. Quase nada muda.
O problema é o posicionamento. Quando o CEO decide que gestão do estresse é competência de liderança estratégica, a conversa muda completamente. Não é mais sobre sentir-se bem. É sobre qualidade de decisão, retenção de talento, velocidade de execução e capacidade de atravessar crises sem colapso organizacional.
Em empresas de tecnologia, perder um engenheiro sênior custa, dependendo da senioridade e do contexto, entre seis e dezoito meses de salário quando se considera recrutamento, onboarding e perda de contexto. Grande parte das saídas que acompanhei de perto não foi por salário. Foi por ambiente. E ambiente é produto direto de como a liderança processa (ou não processa) pressão.
A conta fecha rapidamente quando você coloca nesses termos. Investir na regulação emocional da liderança não é despesa de bem-estar. É hedge contra custo de rotatividade, custo de decisão ruim sob pressão e custo de reputação interna.
O que Mel Robbins acerta que a maioria dos livros de gestão erra
Muitos livros de liderança falam de visão, cultura, estratégia. São importantes. Mas partem do pressuposto implícito de que o líder está operando num estado regulado. Robbins não assume isso. Ela começa pelo corpo, pelo impulso, pelo momento antes da ação.
O “Let Them” do título é contraintuitivo para quem está em modo de controle. A premissa é: você não consegue controlar o que os outros fazem, sentem ou decidem. Gastar energia tentando controlar o incontrolável é a fonte primária de estresse crônico em liderança. O trabalho é soltar esse controle de forma deliberada e redirecionar a energia para o que está dentro do seu raio de ação.
Para um CEO que lidera time de tecnologia com cliente exigente, prazo apertado e mercado volátil, isso não é filosofia. É gestão de recurso escasso. Atenção e energia são finitos. Onde você os aplica define o resultado.
Eu não concordo com tudo que Robbins propõe. Acho que ela às vezes simplifica dinâmicas organizacionais que têm camadas mais complexas. Mas o núcleo do argumento é sólido: a liderança começa internamente, e ignorar o interno contamina o externo.
O fenômeno editorial em torno do livro me diz algo sobre o momento. As pessoas que compram esse livro não são apenas indivíduos em crise pessoal. São profissionais que estão procurando um protocolo para continuar operando bem num ambiente que não foi desenhado para sustentabilidade humana.
Se o líder não responde a esse sinal, alguém no time vai responder com pedido de demissão.
Perguntas frequentes
Gestão do estresse é realmente responsabilidade do líder ou de cada indivíduo?
É das duas, mas em sequências distintas. O líder é responsável pelo ambiente e pelo modelo de comportamento que estabelece. O indivíduo é responsável pelas próprias práticas dentro desse ambiente. Quando o líder normaliza colapso como performance, o indivíduo opera sem referência saudável. Começa pela liderança.
Como diferenciar pressão produtiva de estresse crônico no time de tecnologia?
Pressão produtiva tem ciclo: sobe, entrega, descansa. Estresse crônico é o estado basal sem variação. Se o time não tem momentos reais de recuperação entre ciclos intensos, se erros simples aumentam, se as conversas difíceis são evitadas e a comunicação encolhe, isso é sinal de sistema nervoso coletivo sobrecarregado, não de equipe de alta performance.
Existe retorno financeiro mensurável em investir na regulação emocional da liderança?
Sim. O caminho mais direto é custo de rotatividade: reter um profissional sênior custa muito menos do que substituí-lo. O segundo caminho é qualidade de decisão: líderes em estado crônico de estresse tomam decisões mais reativas, com menos análise de cenário. O terceiro é velocidade de execução: times psicologicamente seguros entregam mais rápido porque não gastam energia em proteção política interna.
Por onde um CEO começa se quiser tratar isso de forma prática, não como pauta de RH?
Comece por nomear publicamente que isso é competência estratégica, não benefício de bem-estar. Depois revise sua própria rotina: onde está o seu intervalo entre estímulo e resposta? Terceiro, observe as reuniões que você conduz. O time fala ou concorda? Se o padrão for concordância excessiva, é provável que o ambiente esteja filtrado pelo seu estado emocional, não pelos dados reais.
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