09 de agosto de 2026 · 5 min de leitura · … visitas
Fans First: o que um time de beisebol me ensinou sobre criar fãs em vez de clientes
Jesse Cole transformou um time de beisebol num fenômeno colocando o fã em primeiro lugar. E se a gente parasse de só fechar clientes e começasse a criar torcida?
Tem uma pergunta em Fans First, do Jesse Cole, que eu não consigo mais tirar da cabeça quando olho pra minha carteira: essas pessoas são clientes ou são torcida? Parece a mesma coisa dita de dois jeitos. Não é.
Eu trabalho com CS e inside sales, e retenção é o assunto que me tira o sono. A gente passa tanto tempo discutindo planilha de churn, fluxo de cobrança, métrica de saúde da conta, que às vezes esquece a pergunta mais simples de todas: a pessoa do outro lado está feliz de fazer parte disso? O livro me lembrou que essa pergunta vem antes de qualquer dashboard.
Um time de beisebol que virou espetáculo
O Jesse Cole é dono do Savannah Bananas, um time de beisebol que virou fenômeno fazendo quase tudo ao contrário do que o esporte costuma fazer. Em vez de tratar o jogo como mais uma partida na agenda, ele tratou cada noite como um espetáculo. O time entra dançando, tem coreografia, tem música, tem coisa acontecendo o tempo todo. O lema é direto: fans first, entertain always. O fã em primeiro lugar, entreter sempre.
O que me pegou não foi a fantasia colorida da coisa. Foi a obsessão por trás dela. O Cole conta que ele e a equipe ficavam literalmente caçando cada ponto de fricção que pudesse atrapalhar a noite de alguém. Toda etapa da experiência, da hora que a pessoa chega até a hora que ela vai embora, era pensada pra encantar. Não era “está bom o suficiente”. Era “como isso pode ser inesquecível”.
E o resultado é que as pessoas não compram só um ingresso. Elas viram torcida. Elas contam pros amigos, voltam, vestem a camisa. O time deixou de ter clientes e passou a ter fãs apaixonados. Essa é a tese inteira do livro num parágrafo: quando a experiência é boa de verdade, as pessoas param de ser consumidoras e viram parte do time.
O preço único que mata o atrito
Uma das decisões que mais me marcou foi a do preço. O Savannah Bananas adotou um ingresso de preço único que já inclui tudo: a comida, a bebida, o lugar. Você paga uma vez e não precisa mais se preocupar com nada. Sem fila pra comprar lanche, sem aquela surpresa desagradável de descobrir que cada coisinha custa um tanto a mais.
O Cole percebeu algo que parece óbvio quando alguém fala, mas que quase ninguém faz: o custo escondido é um atrito enorme. Aquela sensação de estar sempre pagando um pouquinho a mais, de não saber a conta final, estraga a experiência mesmo quando o espetáculo é incrível. Ao colocar tudo num preço só, ele não estava só simplificando a contabilidade. Ele estava removendo a desconfiança da relação.
Essa parte me fez parar e pensar bastante. Porque atrito e custo escondido não existem só em estádio de beisebol. Eles existem em qualquer relação com cliente. E muitas vezes são pequenos, quase invisíveis pra quem está dentro da empresa, mas enormes pra quem está do lado de fora tentando usar o que comprou.
Trazendo isso pro meu mundo de CS e retenção
Quando eu olho pro meu trabalho com a lente do Fans First, algumas coisas ficam mais nítidas. A primeira é que retenção não é uma área que liga quando o cliente já está com um pé fora. Retenção começa no primeiro contato, na primeira semana de uso, na primeira vez que a pessoa precisa de ajuda. Cada um desses momentos é uma chance de encantar ou de criar um atrito que vai se acumulando.
No dia a dia, eu costumo perguntar: onde estão os custos escondidos da nossa relação? Não falo só de dinheiro. Falo do tempo que a pessoa perde tentando entender um processo, da espera por uma resposta, da etapa a mais que ninguém explicou. Esses são os equivalentes daquela fila do lanche no estádio. Pequenos, mas é neles que a torcida se desfaz.
A segunda coisa é a ideia de tornar tudo mais leve e, por que não, mais divertido. Eu sei que “diversão” soa estranho quando a gente fala de suporte e de conta empresarial. Mas o que o Cole defende não é palhaçada. É cuidado. É a pessoa do outro lado sentir que tem alguém ali que se importa de verdade com a experiência dela, e não só com o contrato renovado. Um onboarding caloroso, uma resposta que resolve de primeira, um acompanhamento que antecipa a dúvida antes dela virar problema. Isso é encantar.
E a terceira, talvez a mais importante, é a diferença entre satisfazer e transformar em fã. Cliente satisfeito fica enquanto não aparece uma opção melhor. Fã defende, indica, perdoa um tropeço e fica por perto porque criou um vínculo. A meta deixa de ser “não perder a conta” e passa a ser “fazer essa pessoa querer fazer parte”. É uma mudança de mentalidade que muda tudo o que vem depois.
O que eu levo do livro
O Fans First não é um manual técnico, e acho que essa é a graça dele. É um livro sobre obcecar por encantamento. Sobre olhar pra cada ponto de contato e perguntar se ali a gente está criando um cliente ou um fã. Sobre ter coragem de remover atrito mesmo quando a versão antiga já funcionava razoavelmente bem.
Eu saí da leitura com uma régua nova na cabeça. Toda vez que eu desenho um fluxo de CS, que eu respondo um cliente, que eu penso numa estratégia de retenção, fico me perguntando: isso aqui está colocando o fã em primeiro lugar? Está removendo atrito ou empurrando o custo escondido pra debaixo do tapete? A resposta nem sempre é confortável, mas é sempre útil.
E fico com uma vontade de passar essa pergunta adiante. Se você trabalha com cliente, de qualquer jeito que seja, qual é o atrito invisível que está impedindo a sua clientela de virar torcida?
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