06 de agosto de 2026 · 6 min de leitura · … visitas
Vendas têm fórmula: o que aprendi com Mark Roberge sobre escalar sem rezar
The Sales Acceleration Formula me fez parar de tratar venda como talento de poucos. Roberge mostra como transformar processo, dados e tecnologia em previsibilidade.
Mark Roberge foi o cara que ajudou a construir a máquina de vendas da HubSpot, saindo de quase nada até centenas de milhões em receita recorrente. No The Sales Acceleration Formula, o que me ganhou não foi a história de crescimento. Foi a tese por trás dela.
Roberge é engenheiro de formação, e ele chega na área de vendas com uma pergunta meio incômoda: por que a gente trata venda como arte misteriosa, dom que alguns têm e outros não, quando dá pra tratar como ciência? Eu trabalho com Inside Sales e Customer Success na UNODATA, e essa frase me pegou em cheio. Porque no dia a dia a gente vive ouvindo que vendedor bom é vendedor que nasceu pra isso. E aí, quando precisa escalar, todo mundo reza pra contratar mais gente igual à única que vende bem.
O livro propõe o contrário. Ele quebra a máquina de vendas em peças que dá pra medir, repetir e melhorar. Vou contar as três que mais mudaram a forma como eu enxergo o meu próprio trabalho.
Contratar deixa de ser intuição e vira critério
A primeira coisa que Roberge faz na HubSpot é parar de contratar vendedor no feeling. Em vez de confiar no carisma da entrevista, ele monta uma lista de características que ele acredita que predizem sucesso, contrata gente, acompanha o desempenho real ao longo do tempo e volta pra checar quais características de fato se correlacionaram com resultado. As que não previam nada, ele descarta. As que previam, ele dobra a aposta.
O que me encanta nisso é a humildade do método. Ele não chega dizendo que sabe o perfil certo. Ele testa, mede e deixa os dados corrigirem a opinião dele. Numa das passagens que mais marcam, características que pareciam óbvias acabam não prevendo nada, e qualidades menos glamourosas, ligadas a curiosidade e a capacidade de aprender, se mostram muito mais conectadas a performance.
Reparei que isso vale demais pra qualquer time pequeno. Quando você tem poucas pessoas, cada contratação errada dói por meses. Tratar o perfil de contratação como hipótese que se ajusta com o tempo, em vez de palpite congelado, é o tipo de coisa que parece óbvia depois que alguém escreve, mas que quase ninguém faz.
Treinar todo mundo igual é desperdício
A segunda peça é o treinamento, e aqui ele é cirúrgico. O instinto da maioria é montar um treinamento padrão e passar todo vendedor pela mesma esteira. Roberge mostra por que isso é ineficiente. Cada vendedor patina numa parte diferente do funil. Um é ótimo em gerar conversa mas trava na hora de fechar. Outro fecha bem mas qualifica mal e enche o pipeline de oportunidade que não vai pra frente.
A proposta dele é usar métricas pra enxergar exatamente onde cada pessoa perde, e então atacar aquela métrica específica. Em vez de coaching genérico, coaching dirigido ao ponto fraco real de cada um. Ele descreve montar planos de desenvolvimento focados em uma métrica por vez, medir, ver se melhorou e seguir pra próxima.
Isso me fez repensar como eu olho pra mim mesma e pra qualquer pessoa que esteja começando comigo no Inside Sales. Não adianta querer melhorar tudo ao mesmo tempo. É mais honesto e mais eficaz olhar os números do próprio funil e perguntar: onde, concretamente, eu estou deixando dinheiro na mesa? É na conexão? Na qualificação? Na passagem pra proposta? Quando você nomeia a métrica, o problema deixa de ser vago e vira treinável.
O processo é o que torna o crescimento previsível
A terceira peça é a que dá nome ao livro. Roberge defende construir um processo de vendas previsível, mapeado e comum a todos, em vez de deixar cada vendedor inventar o próprio caminho. A ideia não é engessar ninguém num script robótico. É ter uma espinha dorsal clara das etapas pelas quais um cliente passa, com métricas em cada uma, pra que dê pra enxergar onde a máquina está rendendo e onde está vazando.
Quando o processo é desenhado e medido, escalar deixa de ser aposta. Você sabe que, pra fechar um número de contratos, precisa de tantas conversas, e que pra ter tantas conversas precisa de tanto topo de funil. Vira aritmética em vez de torcida. É isso que ele quer dizer com fórmula: não uma receita mágica, mas um sistema onde cada parte é visível, mensurável e ajustável.
Eu trabalho num produto técnico, de correio corporativo e proteção de e-mail, onde a venda é consultiva e o ciclo não é curto. E mesmo assim a lógica se aplica inteira. Quando eu trato cada etapa da conversa como parte de um processo que dá pra observar, paro de achar que perdi um cliente por azar e começo a ver em que ponto a conversa esfriou. Isso muda a forma como eu enxergo também o Customer Success, porque retenção é venda que continua acontecendo depois da assinatura. Se eu sei medir onde o relacionamento perde força, eu consigo agir antes do churn, não depois.
Por que isso importa pra quem cuida do cliente
O que me deixou empolgada de verdade com esse livro é que ele dá dignidade ao trabalho de quem vende e de quem cuida. Ele não diz que carisma não importa. Diz que carisma sozinho não escala, e que processo bem feito permite que mais gente seja boa, não só a estrela do time. Isso é profundamente democrático. Tira a venda do pedestal do dom e devolve pra todo mundo que está disposto a aprender e a medir.
E tem uma ponte direta com o meu mundo de CS. Retenção também não pode depender de heroísmo individual. Se a gente só segura cliente quando uma pessoa específica corre atrás, a gente não tem retenção, a gente tem sorte. O convite do Roberge, traduzido pra retenção, é construir um jeito repetível de enxergar o relacionamento, medir os sinais e agir no ponto certo.
Depois de fechar o livro, fiquei com uma pergunta que ainda estou respondendo no meu próprio funil. Qual é a única métrica do seu processo de vendas ou de retenção que, se você melhorasse de propósito nas próximas semanas, mudaria mais o seu resultado? Eu já sei qual é a minha. E você, já parou pra olhar a sua?
esse texto te ajudou?
continuar lendo
Outros artigos pra você

14 de jul. de 2026 · Natália Ramos
The Forever Transaction: por que eu parei de pensar em fechar venda e comecei a pensar em começar relação

24 de mai. de 2026 · Natália Ramos
Transparência em IA: o que a multa da FTC ensina sobre retenção

20 de mai. de 2026 · Natália Ramos
Contratos de US$ 1,25 bilhão e o que eles ensinam sobre retenção
vendas · inside-sales · customer-success · processo